'Eu não sei onde seu jurista aprendeu Direito': documentário expõe conversa entre Macron e Putin antes da guerra na Ucrânia

Filme francês mostra diálogo entre os presidentes da França e da Rússia nas semanas que antecederam o início da invasão russa. Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da França, Emmanuel Macron Mikhail Klimentyev/Sputnik/AFP e Ludovic Marin/AFP O documentário “Um presidente, a Europa e a Guerra” (em tradução livre), de Guy Lagache, foi ao ar na televisão pública francesa no dia 30 de junho e mostrou uma conversa telefônica de nove minutos entre os dois presidentes que aconteceu quatro dias antes da Rússia invadir o território ucraniano. A exposição irritou o governo russo. Nesta quarta-feira (6), o chanceler Serguei Lavrov acusou a França de quebrar unilateralmente o sigilo das negociações. "A etiqueta diplomática não permite vazamentos unilaterais de [tais] gravações", disse Lavrov, que está em viagem ao Vietnã. Uma conversa tensa e surpreendente Gravada no dia 20 de fevereiro, a conversa telefônica mostra uma tentativa de Macron em evitar o conflito na Ucrânia, enquanto a Rússia amplia os exercícios militares na região da fronteira com o país vizinho. O diálogo começa em tom amical, mas rapidamente muda de temperatura e termina com o presidente francês usando um discurso duro e nervoso contra Vladimir Putin, que mantém um tom calmo e até cínico. No filme, a conversa é mostrada a partir da sala dos conselheiros diplomáticos de Emmanuel Macron, que ouvem a conversa no viva-voz em outra sala do Palácio do Eliseu, enquanto tomam nota e enviam mensagens ao chefe de Estado francês. Documentário “Um presidente, a Europa e a Guerra”, de Guy Lagache, foi ao ar na televisão pública francesa no dia 30 de junho Divulgação/France 2 O presidente francês inicia a conversa direto ao ponto: "Gostaria que você me desse sua leitura da atual situação primeiro e talvez de forma bastante direta, como nós dois costumamos fazer, me dissesse quais são suas intenções", diz Macron. "O que posso dizer? Você pode ver por si mesmo o que está acontecendo", responde Putin com tom calmo, em referência aos acordos de Minsk, que seriam a base de negociação para garantir a paz possível no leste da Ucrânia. O russo acusa o presidente francês de tentar “rever os acordos” feitos após a anexação da Crimeia e pede que as propostas feitas pelos separatistas da Ucrânia sejam levadas em consideração para a construção da paz. Macron sobe o tom e mostra irritação: “Eu não sei onde seu jurista aprendeu Direito. Eu leio o texto e tento aplicá-lo. Eu não sei que jurista poderia lhe dizer que em um país soberano as leis são propostas por grupos separatistas e não por autoridades democraticamente eleitas". A frase provoca risos entre os conselheiros diplomáticos franceses. Putin responde que o governo de Volodymyr Zelensky não foi democraticamente eleito e chegou ao poder por meio de um violento golpe de estado. O russo volta a reclamar que os separatistas pró-russos não são ouvidos. "Não queremos saber das propostas dos separatistas", diz o presidente francês, acrescentando que elas não estão previstas no acordo. Tentando se mostrar conciliador, Macron propõe uma reunião entre todas as partes. "Vou exigir isto de Zelensky [o presidente ucraniano]", afirma. A reunião nunca aconteceu e, quatro dias mais tarde, a Rússia invadiu a Ucrânia, mostrando que a ofensiva estava preparada, apesar das numerosas negativas do Kremlim. Oficiais de resgate ajudam na busca por sobreviventes após ataque na cidade de Odessa, Ucrânia Serviço de emergência da Ucrânia/Reprodução via Reuters Não temos do que nos envergonhar Apesar de mostrar incômodo com o filme, o chanceler afirmou que seu país não tinha motivos para esconder o conteúdo da conversa entre os dois líderes. "Sempre conduzimos as negociações de tal forma que nunca temos que nos envergonhar. Dizemos sempre o que pensamos, estamos prontos para responder por nossas palavras e explicar nossa posição", declarou Lavrov. A Guerra na Ucrânia já completou mais de quatro meses, deixando milhares de mortos e longe de parecer ter solução. Câmera mostra momento em que míssil atinge shopping na Ucrânia

'Eu não sei onde seu jurista aprendeu Direito': documentário expõe conversa entre Macron e Putin antes da guerra na Ucrânia

Filme francês mostra diálogo entre os presidentes da França e da Rússia nas semanas que antecederam o início da invasão russa. Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da França, Emmanuel Macron Mikhail Klimentyev/Sputnik/AFP e Ludovic Marin/AFP O documentário “Um presidente, a Europa e a Guerra” (em tradução livre), de Guy Lagache, foi ao ar na televisão pública francesa no dia 30 de junho e mostrou uma conversa telefônica de nove minutos entre os dois presidentes que aconteceu quatro dias antes da Rússia invadir o território ucraniano. A exposição irritou o governo russo. Nesta quarta-feira (6), o chanceler Serguei Lavrov acusou a França de quebrar unilateralmente o sigilo das negociações. "A etiqueta diplomática não permite vazamentos unilaterais de [tais] gravações", disse Lavrov, que está em viagem ao Vietnã. Uma conversa tensa e surpreendente Gravada no dia 20 de fevereiro, a conversa telefônica mostra uma tentativa de Macron em evitar o conflito na Ucrânia, enquanto a Rússia amplia os exercícios militares na região da fronteira com o país vizinho. O diálogo começa em tom amical, mas rapidamente muda de temperatura e termina com o presidente francês usando um discurso duro e nervoso contra Vladimir Putin, que mantém um tom calmo e até cínico. No filme, a conversa é mostrada a partir da sala dos conselheiros diplomáticos de Emmanuel Macron, que ouvem a conversa no viva-voz em outra sala do Palácio do Eliseu, enquanto tomam nota e enviam mensagens ao chefe de Estado francês. Documentário “Um presidente, a Europa e a Guerra”, de Guy Lagache, foi ao ar na televisão pública francesa no dia 30 de junho Divulgação/France 2 O presidente francês inicia a conversa direto ao ponto: "Gostaria que você me desse sua leitura da atual situação primeiro e talvez de forma bastante direta, como nós dois costumamos fazer, me dissesse quais são suas intenções", diz Macron. "O que posso dizer? Você pode ver por si mesmo o que está acontecendo", responde Putin com tom calmo, em referência aos acordos de Minsk, que seriam a base de negociação para garantir a paz possível no leste da Ucrânia. O russo acusa o presidente francês de tentar “rever os acordos” feitos após a anexação da Crimeia e pede que as propostas feitas pelos separatistas da Ucrânia sejam levadas em consideração para a construção da paz. Macron sobe o tom e mostra irritação: “Eu não sei onde seu jurista aprendeu Direito. Eu leio o texto e tento aplicá-lo. Eu não sei que jurista poderia lhe dizer que em um país soberano as leis são propostas por grupos separatistas e não por autoridades democraticamente eleitas". A frase provoca risos entre os conselheiros diplomáticos franceses. Putin responde que o governo de Volodymyr Zelensky não foi democraticamente eleito e chegou ao poder por meio de um violento golpe de estado. O russo volta a reclamar que os separatistas pró-russos não são ouvidos. "Não queremos saber das propostas dos separatistas", diz o presidente francês, acrescentando que elas não estão previstas no acordo. Tentando se mostrar conciliador, Macron propõe uma reunião entre todas as partes. "Vou exigir isto de Zelensky [o presidente ucraniano]", afirma. A reunião nunca aconteceu e, quatro dias mais tarde, a Rússia invadiu a Ucrânia, mostrando que a ofensiva estava preparada, apesar das numerosas negativas do Kremlim. Oficiais de resgate ajudam na busca por sobreviventes após ataque na cidade de Odessa, Ucrânia Serviço de emergência da Ucrânia/Reprodução via Reuters Não temos do que nos envergonhar Apesar de mostrar incômodo com o filme, o chanceler afirmou que seu país não tinha motivos para esconder o conteúdo da conversa entre os dois líderes. "Sempre conduzimos as negociações de tal forma que nunca temos que nos envergonhar. Dizemos sempre o que pensamos, estamos prontos para responder por nossas palavras e explicar nossa posição", declarou Lavrov. A Guerra na Ucrânia já completou mais de quatro meses, deixando milhares de mortos e longe de parecer ter solução. Câmera mostra momento em que míssil atinge shopping na Ucrânia